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domingo, 29 de agosto de 2010

Seja Zen, mas seja pragmático




"Convivi na minha juventude com um amigo que de repente se descobriu um ser iluminado. Parou de comer carne, virou iogue, falava sempre mansamente, aboliu os palavrões e ficou com aquele olhar beatífico dos seres que "sabem a verdade suprema" e que nela habitam, pelo menos parcialmente. Ele me relatou um dia que ao andar pela rua, tinha sempre de atravessar cada vez que tinha de passar em frente a um boteco ou a um açougue. Senão ficaria mal. Fiquei muito impressionado com aquilo e me senti um tosco, pois apesar de me achar espiritualizado também passava em frente aos açougues e aos botequins de pinguços e não sentia nem cócegas...

Mas como a maioria dos seres que se elevou sem ser de elevador, tudo é muito mais um desejo de ser do que um ser propriamente dito. Um dia estava num ônibus e o vi passeando com uma moça e conversando animadamente em frente a um botequim de cachaceiros!
Não quero dizer que não sofram com a estupidificação das gentes. Sofrem porque não conseguem conviver com as diferenças de modo sereno. Entendo que para seus valores mais depurados o varejo não espiritual das massas parece pobre, vil e uma perda de tempo precioso. Até concordo. Entendo que por terem superado certas premências do corpo de desejos (fumar, beber, drogar-se, comer carne, ganância, agressividade, compulsão sexual, etc.) lamentem não poder cooptar o resto da humanidade para esse estado de maior equilíbrio e paz interior. Mas essa sensibilidade pode ser uma deficiência se não vier acompanhada de um senso de realidade e de capacidade de agir prontamente num mundo nada zen.
Conheci pessoas ótimas, sensíveis, dedicadas à elevação da humanidade a patamares mais elevados, mas absolutamente incapazes de trocar o óleo do carro. Com o motor fundido, se perguntavam se aquilo não seria alguma maracutaia do "maligno" para afastá-las dos caminhos para a divindade. De outra vez estávamos no meio de uma conversa animada quando a luz se apagou. Até que foi legal continuar à luz de velas. Mas perdeu a graça quando eu soube que a minha anfitriã havia se esquecido de pagar as contas de luz! Para os mais jovens digo e repito de forma obsessiva: Pés no chão! Foco! Estejam ligados! A vida é aqui e agora! Antes de viajar (no sentido literal mesmo) verifiquem o tanque de combustível. Por mais que desejem, o carro não será movido a energia mental, e se ficar sem combustível não esperem que os mestres ascencionados venham a empurrá-lo!
Comprometer-se com um programa de desenvolvimento espiritual, rejeitar certos hábitos "decadentes", adotar uma postura mental mais despojada de mesquinharias materialistas, não é incompatível com o estar no mundo. Refinar seus gostos tanto musicais quanto alimentares, não precisa ser uma renúncia ao uso lúcido das ferramentas sociais à nossa disposição. Ser espiritualizado não é uma autorização divina para não pagar os impostos, ou para não tomar banho.
Quando esses não integrados demonstram essa incapacidade de lidar com o bê-a-bá das regras do jogo, estão adotando uma atitude masoquista. O rebote sempre vem e vem machucando. O pior é que quase sempre machuca mais aqueles que estão à volta do zen (noção), pois eles acabam assimilando os reveses como provas dos sacrifícios naturais da sua opção. Já ouvi muitas vezes a frase: "se Jesus que era Jesus acabou na cruz, não podemos esperar coisa muito melhor." Ou seja, eles e elas vêm os sofrimentos causados por sua própria imperícia como provações do plano espiritual para testar a sua opção de vida.
A busca da elevação espiritual não se faz dando-se as costas à realidade seja ela o que for. A espiritualidade não pode ser desculpa para a nossa incompetência em lidar com o mundo à nossa volta. Ser zen não deve ser um pretexto para a preguiça, a covardia, ou a tibieza mental. Parafraseando a minha avó: o verdadeiro espiritualista mantém um olho no peixe e outro no gato."
(Roberto Goldkorn - www.orion.med.br)

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