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quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Força da Palavra?



Próximo Encontro de Filosofia: sábado, dia 10 de julho, no EspaçoNave!

Leia aqui mais um texto de Marcos Tristão...
(...) Aquele que tem mais do que precisa ter quase sempre se convence de que não tem o bastante e fala demais por não ter nada a dizer (...)
Este dito e escrito, ou melhor, “musicado” pelo brilhante Renato Russo instaura-se neste momento como nosso ponto de partida. O que seria falar? Bem, a princípio segundo a normatividade designaria um verbo em primeira conjugação que denotaria tão simplesmente a ação de expressar-se, ou ainda, colocar-se através de um conglomerado de letras que uma vez assim compõem palavras.

Ao efetuar-se um pequeno recuo entende-se que a composição de palavras uma vez encadeadas transforma-se em discurso e este, por sua vez, traz consigo um “telos”, uma finalidade. O curioso é que nos parece que a finalidade oculta e escamoteada por detrás de todo discurso arrasta consigo o desejo, a vontade de verdade e persuasão. É curioso também notar que o autor de tão laborioso empreendimento geralmente o faz de oitiva e já por isto a fim de sustentar seu suposto argumento lança mão de certos subterfúgios – escândalos, franzirem de cenho e até mesmo demonstrações de agressividade – e espanta, deste modo, qualquer interseção questionativa acerca de sua verborragia.
Desta forma, e por meio destas palavras, erigem-se imagens, autores indiscutíveis, personagens inabaláveis que decoram e ornamentam o cenário do discurso. E este, uma vez configurado, aloca-se extirpando qualquer possibilidade de movimento e, por sua força, nutrida o tempo inteiro pela mimética sedimenta, concretiza e “bloca” o território da representação.
Ora, até bem pouco tempo atrás a palavra era o Lógos, o Tópos onde se instaurava inaugurando sempre uma possibilidade que se apresentava nos contínuos modos do dizer, onde a representação ali não se instituía, visto que, para além e imanente à palavra encontrava-se a potencialização da vida manifestada na beleza do dizer. A máxima vigente então em plena atualidade institui uma nova ordem que se reduz à seguinte regra: o mundo é um teatro. Donde? Como assim? Se mesmo os gregos- criadores do teatro- assim o fizeram tão somente para demonstrar a despersonalização do poder da simples palavra, a tragicidade da existência humana tendo em vista sua finitude e sua limitação e, sobretudo, a falsidade gritante existente na realidade dada e, mais ainda, a possibilidade da conversão da simples existência em uma obra de arte.
A nós, ao estarmos tão distantes e ao mesmo instante tão próximo do antes e do agora, nos cabe um auto-questionamento. Nesta atitude talvez esteja o ponto iniciático onde redundariam as seguintes perguntas: Qual papel represento no mundo? A que ponto de distância me encontro entre aquilo que profiro e o que faço? Que distinção há entre dizer e falar? Quem sabe se nos desalojarmos do exaurido campo da razão consigamos navegar pelo pensamento e encontrar os clarões que iluminem estas questões.
Marcos Tristão

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